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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Before the Devil Knows You`re Dead*

Andy: The, the total is always the sum of its parts. It's clean. It's clear. Neat, absolute. But my life, it... it doesn't add up. It... Nothing connects to anything else. I'm not, I'm not the sum of my parts. All my parts don't add up to one... to one me, I guess.

Justin: Get a shrink or a wife.

Andy: Uh, I got a wife.

Justin: Get a shrink.

* Sidney Lumet

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

This is you. Eyes closed, out in the rain. You never thought you'd be doing something like this, you never saw yourself as, I don't know how you'd describe it... Is like one of those people who like looking up at the moon, who spend hours gazing at the waves or the sunset or... I guess you know the kind of people I'm talking about. Maybe you don't. Anyway, you kind of like being like this, fighting the cold, feeling the water seep through your shirt and getting through your skin. And the feel of the ground growing soft beneath your feet. And the smell. And the sound of the rain hitting the leaves. All the things they talked about in the books you haven't read. This is you, who would have guessed it? You.

- Why do you have to listen to this stuff?
Why can't you listen to music like normal people?
- No-one's normal, Mom. No such thing as normal people.*

* Mi vida sin mí, Isabel Coixet

sábado, 27 de setembro de 2008

*
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" Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda. Não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós: algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá no fundo nada. Princípios, claro. Regras. O resto, quase tudo, fiz sempre sozinho. E estive sozinho nos momentos mais difíceis da vida, que sofri na carne como um cão: aquilo que, destilado, aparece nos livros, que são o itinerário de uma aprendizagem e de uma dor, a certeza da vida redimir a morte, da necessidade da alegria, de uma paz intransigente conquistada a pulso. A humilde capacidade de admirar as pessoas, respeitá-las, que tanto tempo levei a conseguir. Olhar nos olhos o que um ano destes não serei. Custa-me a ideia de não escrever, um dia. Do mundo continuar sem mim. De perder corpos, calor: o que ganharei em troca? O meu pai foi-se embora há quatro anos: percebo hoje que existia entre eu e a morte, a defender-me sem saber que me defendia e que a partir de então, quando ela tocar à campainha, é a minha vez de abrir a porta: não quero chegar à maçaneta a tropeçar, quero mostrar-lhe a casa limpa e pronta. Dizer a quem se achar ao meu lado
*
– Eu já venho
*
e descer as escadas. Não se incomodem, não se levantem: sou capaz de descer as escadas sem ajuda até vários palmos abaixo da terra. Espero que haja sol nesse dia, um arrepio alegre nas árvores. Não se incomodem que eu já venho. Sentir-me-ão nos objectos, deixarão de sentir-me a pouco e pouco à medida que a saudade se atenua. Continuarei aqui através dos meus livros, na altura em que ninguém meu conhecido sobrar.
...
Esta não é uma crónica melancólica: é a obstinação do ofício que pratico desde que me conheço, afastando sempre o que o estorvava. Pagam-me para fazer o que faria de qualquer maneira e portanto sou uma criatura feliz. Na altura em que a morte, de que falei há bocado, chegar, já a venci."
*
António Lobo Antunes
*
* Serei "... uma criatura feliz. E, na altura em que a morte, de que falei há bocado, chegar, já a venci."

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Once I wanted to be the greatest,
No wind or waterfall could stall me...
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" Eu, mais ninguém. Quer dizer, só fico eu. A interromper-me. Por não poder continuar a ser como sou sem me lembrar que nem sempre fui assim. Já fui como os outros, quando eram o que já não são, ou que não são o que acabarão por ser.
Sou mais que uma testemunha inocente da minha vida, apanhada a fugir do local do crime e obrigada a depor e a sujeitar-me ao julgamento dos outros.
Também já fui autora. Actriz. Fiz a minha vida e, entrei nela, durante uns tempos...
Já tive vontade. Já tive importância. Já vivi fora do mundo. Já aqui estive sem ser à espera. Já fui eu quem aparecia, quem obrigava as coisas a acontecer, quem se opunha, quem me convencia, quem lutava pelas coisas em que acreditava, quem não descansava enquanto não tivesse o que queria.
Já não é assim que sou. O que fui já ninguém mo tira. Antes de ser pessoa, fui mulher. E, era ser mulher, que na altura me apetecia.
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Um dia atiro a alma ao ar e serei friamente feliz."
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miguel esteves cardoso, Cemitério de Raparigas

terça-feira, 17 de abril de 2007

" Chuva. Torrentes de água escura. E um cheiro. Enjoa-doce. Como rosas velhas na brisa. Mas o pior de tudo era carregar dentro de si a memória de um homem novo com boca de velho. A memória de uma cara inchada e de um sorriso desfeito e invertido. De um charco líquido claro a alastrar continuamente e de um bolbo nu reflectido nele. De um olho raiado de sangue que se abrira, passeara e depois fixara o seu olhar em si. Estha. E o que fizera Estha? Olhara para aquele rosto amado e dissera: Sim.
Sim, era ele.
A palavra a que o polvo de Estha não conseguia chegar: Sim. Aspirar parecia não valer a pena. Estava alojada ali, no interior de alguma prega ou estria, como um fio de manga entre molares que não consegue soltar-se.
Talvez seja verdade que tudo pode mudar num dia. Que umas escassas dúzias de horas podem afectar o curso de toda uma vida. E que, quando assim acontece, essas poucas dúzias de horas, como despojos de uma casa queimada - o relógio carbonizado, a fotografia chamuscada, a mobília ardida -, têm de ser ressuscitadas das ruínas e examinadas. Conservadas. Explicadas.
Pequenos acontecimentos, coisas vulgares, destruídas e reconstituídas. Investidas de novo significado. Subitamente tornam-se nos ossos descorados de uma história.
Ainda assim, dizer que tudo começou quando Sophie Mol chegou a Ayemenem é só uma maneira de ver as coisas.
De igual modo se podia argumentar que tudo começou há milhares de anos. Muito antes dos marxistas chegarem. Antes dos britânicos tomarem Malabar, antes da Ascendência Holandesa, antes da chegada de Vasco da Gama, antes de Zamorin conquistar Calecute. Antes de três bispos sírios com vestes púrpura e assassinados pelos portugueses terem sido encontrados a flutuar no mar, com serpentes marinhas enroscadas nos troncos e ostras enoveladas no emaranhado das barbas. Poder-se-ia argumentar que tudo começou antes de o cristianismo chegar num barco e se infiltrar em Kerala como chá de uma saqueta.
Que tudo começou realmente na época em que as Leis do Amor foram feitas. As leis que estipulavam quem devia ser amado, e como.
E quando ."
O Deus Das Pequenas Coisas, Arundhati Roy

sábado, 17 de fevereiro de 2007

coisas dos outros que marcam

" à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal."

Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto
" Violento,
O choque de dois carros,
Violento,
Sem mortes,
Mas do qual um homem
Parará o relógio da vida,
Para ficar sentado, inválido
Numa varanda vendo
O tempo passar
Lento para ele,
Veloz para um turbilhão de outros
Que masoquistamente chocam.
E se alguém gritar
A perca da sua virgindade
O povo acreditará
Vendo o sangue escorrer
Pelas pernas amachucadas;
Assim o foi, para a menina
Dos olhos brilhantes como o sol
Do primeiro piso, do velho prédio
Que um dia trocou
A inocência vinda do parto
Pelo nojento cheiro de sete homens,
Que sem espécie de sentimentos
Sete filhos lhe deram;
Castigo para quem abusa de si,
Eis o que a vida lhe deu
A ela, a puta
Como agora lhe chamam,
Quando passa pela multidão
Com o corpo hipotecado
E o amor alugado. "